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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

ausência (VINICIUS DE MORAIS)

   Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
   Por que nada te poderei dar senão a magoa de me veres eternamente exausto.
   No entanto  tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
   E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
   Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
   Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
   Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
   Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
   Eu deixarei...tu irás e encostarás a tua face em outra face 
   Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás 
   Para a madrugada
   Mas tu não saberás que quem te colheu foi eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
   Porque meus dedosenlaçaram os dedos da névoa 
   Suspensos no espaço
   E eu trouxe até mim a misteriosa essencia do teu abandono desordenado.
   Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos 
   Mas eu te possuirei mais que ninguem porque poderei 
   Partir
   E todas as lamentaçoes do mar, do vento, do céu, das aves , das estrelas
   Serão a tua voz presente , a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
  

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